sábado, abril 10, 2004

Descolonização

O Dr. Almeida Santos deu uma patética entrevista ao "Público" onde apresenta em resumo a defesa que, ao que diz, está a escrever em livro: a afirmação fundamental é que não teve culpa nenhuma, não foi ele, foram outros.
Vai bem longe o tempo em que a tese oficial era a da "descolonização exemplar": o tempo desfez a mentira, e já nem o mais descarado mentor dessa tragédia tem descaramento para aparecer a dizer isso. Mas convém recordar que houve esse tempo, em que se esgatanhavam a reclamar para si o mérito maior o Dr. Soares, o Dr. Santos, o Major Antunes, e mais uns quantos.
Passaram depois os mesmos protagonistas da tese anterior a defender com um ar compungido a tese da "descolonização possível": o miserável processo que conduziram não terá sido exemplar, mas não podia ter sido de outra maneira, por força de fatalidades várias de que não tiveram responsabilidade (a culpa, evidentemente, pertenceu a outros, ao fascismo como é óbvio).
Esta tese é tão falsa como a anterior: se nada houve de exemplar no processo, também não é verdade que os seus protagonistas tenham sido empurrados por circunstâncias exteriores a fazer o que não desejavam. Como se lembrará quem tiver um mínimo de memória, o que eles fizeram coincidiu inteiramente com o que entusiasticamente defendiam, e fizeram-no jubilosamente, trombeteando ao mundo as suas glórias.
Agora, passado o tempo suficiente para estar à vista de todos o balanço desastroso da maior vergonha da nossa existência como povo, já ninguém quer ficar amarrado ao pelourinho da história. A "descolonização" já não é "exemplar" nem foi "a possível": - ela foi o que foi, mas eu é que não fui...
A defesa agora é igual à de qualquer criminoso cobarde que foi apanhado em flagrante e está sentado no banco dos réus a tremer de medo perante o julgamento.